terça-feira, 29 de setembro de 2015

LEON E A DAMA LIBERTADORA SE ENCONTRAM

Difícil algumas vezes falar dos amigos, das pessoas que estimamos, ainda mais depois que eles partem. Quando este amigo é um artista, a tarefa se torna ainda mais difícil, afinal, os artistas são amados e odiados, reverenciados e desprezados, geralmente, com a mesma intensidade. Com este amigo não era diferente.

Fácil mesmo era encontrá-lo no Jardim Público. Ou estava na barraca do Daniel, seu filho artesão, sempre disposto a uma conversa, ou a filmar, o ambiente paradisíaco e infernal, os personagens angélicos ou demoníacos, residentes do local. Ou a perder-se entre tantos transeuntes que, anonimamente, sem chamar atenção, por ali passam, desde as primeiras até as últimas horas do dia.
Leon e sua câmera, geralmente inutilizável; também o seu paletó preto, surrado, amassado; o seu cabelo, na maioria das vezes, à lá Jabor, grande, cheios, ao vento. Leon e seus projetos, para teatro e cinema. Uma usina de projetos. Samadhi, Tá na Praça, Crônicas de uma Cidade Azul, Nóia... Leon e todos os seus sonhos, todos os seus medos. Leon e sua crença inabalável no ser humano e em uma sociedade justa e igualitária. Leon e a sua vontade, quase nunca satisfeita, de entender a vida e os seus mistérios. O seu amor à vida, para qual dera tudo, o melhor e o pior de si.
A vida, por vezes, é mesmo dura e injusta para alguns. Isto é um fato. Retratado a cada instante, em cada pedaço de chão onde pise um ser humano, apesar dos arranjos e acomodações filosóficas e religiosas, quando não científicas, que pretendem desmentir ou atenuar essa realidade.
Leon ia além de tudo isso. Era um artista, de corpo e alma, coração e mente. Por falta de recursos e oportunidades, não conseguira como tantos outros, expressar toda a arte que havia dentro de si. Mas que havia, sim, havia. Muita arte. Que, em suas peças teatrais e filmes, ganhava vida, na forma de vontade exacerbada e revolta, retratada com fidelidade assombrosa, e por vezes ofensiva ao público menos esclarecido, fossem no seu gestual, na sua impostação de voz, enquanto personagem de si mesmo no palco do Centro Cultural ou nos pátios dos colégios onde se apresentava, gratuitamente, sempre com a esperança de despertar a bondade no coração de alguma criança. A bondade que Leon acreditava existir em todas as pessoas, ainda que adormecida.

Leon Denis P. Chaves, ou simplesmente Leon Dharma, queria falar aos insanos, aos esquecidos, e falou mesmo, à sua maneira, com suas peças teatrais e seus filmes, pouco vistos e não compreendidos senão por aqueles que o conheciam e o admiravam por sua incansável obstinação e crença no ser humano e na arte. Seu nome sai dos cartazes para eternizar-se numa lápide, em local incerto. O Batistinha, talvez.
Em nossas últimas conversas, sempre prazerosas, disse-me de sua vontade em rever sua terra natal e sua família; disse-me sentir que a dama libertadora se aproximava, pediu-me um texto que pretendia filmar na forma de documentário. Então escrevi “Jardim das Almas”, publicado no meu Blog Passa a Régua, no site Autores, no mensário Aquarius e no Jornal Diário. Escrevi Jardim das Almas, assim como já havia escrito tantos outros textos a pedido dele: peças de teatro, crônicas, roteiros, que fiz chegar às suas mãos, mesmo sabendo que muito dificilmente seriam realizados. Não foram.
Talvez os façamos breve, no outro plano da vida, o verdadeiro, aquele que suporta os audaciosos, os sonhadores e os transgressores, porque tudo compreende, porque sabe que prazer ou dor, medo ou coragem, fé ou ausência dela, são nada mais que formas de expressar a própria vida imorredoura.

O artista é aquele que se consome nas teias inescapáveis dos seus sonhos. Seja feliz, Leon, agora sob a luz! Licença poética: Nos vemos mais adiante.

*Publicado na edição de 01/10/2015, à pág. 12, no Jornal Diário do Rio Claro.

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