terça-feira, 24 de maio de 2016

O SR. H.

Acordei pela manhã – acho que por volta de 6 e 15, já havia clareado o dia – com uma ideia genial, que me decidi por não anotá-la, por absoluta preguiça de levantar-me da cama, e acabei por perdê-la. Noutros tempos, isso me deixaria extremamente irritado, mas hoje não. As ideias devem percorrer a mente, mas não permanecer, as aves ocupam o céu voando. Lembro-me de ter escrito isso ou algo assim, alguma vez, em algum lugar, mas isso também não faz diferença, não tem a menor importância.
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Escrever tornou-se ofício de tolos. Quase todo mundo se vê tentado a traduzir pensamentos e ideias em palavras, porque consideram – eu presumo – que escrever lamúrias sobre amores ginasianos não correspondidos, é fazer literatura. Muitos os chamados e poucos escolhidos. Aqui também se aplica a máxima. Quando escrever era coisa de alguns é que era excitante. Hoje, é banalidade. Louvemos a banalidade e participemos da festa. Ou a ignoremos sob o pretexto de mantermos a dignidade.   
Como espírito, ter nascido aqui deve ter valido alguma coisa. Mas, como escritor e poeta (o que alguns me consideram – malditos sejam!) foi um desastre. E abraçar essa doutrina que busca entendimento e conforto no mais além, foi o golpe de morte às minhas pretensões. Ainda bem que tudo passa, que nada permanece, sequer nós mesmos permanecemos, e quero muito acreditar que nem as ideias, os argumentos, as certezas haverão de permanecer. Tudo há de tomar forma e adquirir conteúdo na tola pretensão humana de entender e descobrir coisas e a si mesmo. Mas há de se diluir a tola pretensão no nada imenso da consciência livre de cada um de nós. Ou coisa alguma faria sentido fosse feita para durar para sempre.
Evolução ao infinito é sinônimo de imperfeição. Como pode ser perfeito algo que jamais se dá por concluído? Há nisto uma contradição que só mesmo a fé cega pode ignorar. E enquanto vou diluindo minha bílis noturna nestas linhas mal traçadas levanto-me da cama, vou ao banheiro, encaro no espelho a figura desleixada, patética, indiferente, quase fantasmagórica, na qual me tornei, pouco a pouco, de modo quase imperceptível, com o passar dos anos, esculpida laboriosa e pacientemente, à custa de todos os vícios e excessos possíveis.
Convenci-me por esses dias que atualmente a literatura me proporciona mais satisfação e gozo, lendo-a que a produzindo. Algo parecido já me ocorre há algum tempo com a beleza humana. Se me faz mais prazeroso observá-la à distância, que tocá-la e explorá-la com aquele ímpeto abjeto humano, próprio dos animais. Sandice incontrolável por um desejo mundano e pecaminoso que devo evitar.
Ainda preservo em meu espírito, a capacidade de absorver a riqueza do perfume das flores, a preciosidade de um sorriso de criança, o olhar de um cão, seu olhar paciente e misterioso, algo infantil. H. tem um cão. Mas eu já lhes falei sobre isso algumas páginas atrás. O aroma de um prato delicioso, feito por mãos hábeis e carinhosas, também me seduz. E saboreá-lo, é algo inebriante, não menos que sorver o líquido precioso guardado em velhos odres, chave que até pouco tempo, me abria portas para o outro mundo, o mundo paralelo, tão real quanto este, o mundo onde também se vive, mas só acessível àqueles que se sujeitam ao estado de consciência alterado, uma ousadia, um pecado venial para as alminhas puras imbuídas de boa fé e desejosas por misericórdia.
Por volta de 10 horas, após vestir-me, ler os jornais do dia, calçar e descalçar as chinelas, eu darei uma volta, pelas ruas do bairro, contornando esses muros altos e intermináveis, percorrendo essas calçadas onde não se nasce uma única gramínea, nem surge uma única formiga menos avisada a ser pisoteada pelas patas de um cão ou pelos pés de um passante a procura do nada, acreditando que o nada, possa mesmo levar o tempo para bem longe e mais depressa.
E assim passam-se os dias. Sem a preocupação causada pelos filhos crescidos, atualmente em lugar incerto. Sem a necessidade louca e irresponsável, devoradora de vida e de sentimentos, para satisfazer as expectativas de pessoas sempre presentes, que sempre levaram de mim tudo o que podiam e nada me trouxeram que ficasse.
Muito bem, senhores dadivosos, dentre os quais Samuel, Fiódor e Franz, eu poderia colocá-los todos sob meus pés,  mas não acho que o esforço valha pena. Já tirei a todas as minhas conclusões, e me refestelo no sétimo céu, diferentemente de vocês que padecem no Umbral. E espero que lá permaneçam. Porque sinceramente, viverei mil anos sem compreender por quais motivos vocês levaram tanto tempo, senhores, para chegarem à mesmíssima conclusão que o finado Sr. H. Por sinal, não me furtarei à pergunta: acaso já o encontraram por essas bandas?
O passeio pelas ruas do bairro, como de hábito, nada trouxe de novo e nem de proveitoso. Nem mesmo com a simpática senhora loira a passear com seu cãozinho peludo, deparei-me nesta manhã. Talvez esteja ausente, viajando, disse-me que iria, se me lembro bem, da última vez em que lhe dei a oportunidade de ocupar preciosos cinco minutos de meu escasso e valioso tempo.
Lembro-me que quando eu tinha 40 anos, pouco mais pouco menos, deliciava-me com a tarefa de fazer compras no mercado municipal aos sábados pela manhã. Comer aquele pastel de carne feito na hora e encontrar frutas e hortaliças que geralmente não se encontra em lugar nenhum por melhor que seja a procedência, era, entretanto experiência enriquecedora para meu corpo sedento por emoções primitivas.
Mas isso já não tem mais nenhuma importância, já não significa absolutamente nada, não desperta nenhum sentimento de satisfação momentânea, mas sem o qual não se vive. Sujeitar-se às emoções efêmeras não nos faz obter da vida tudo o que de bom e de melhor ela pode nos proporcionar. O finado Sr. H. dizia que a vida importa em face dos bons e raros momentos que nos proporciona. Fui mais além, quando decidi por eu mesmo tornar esses bons momentos não raridade, mas rotina.
Um poeta disse que seus heróis morreram de overdose. Eu não tive heróis, eu o fui. Eu fui exército de um homem só. Traduzindo: de eu mesmo. Observei as pessoas e delas me utilizei sem que soubessem para chegar às minhas conclusões. Fingi que as amava e que eram importantes para mim, para expô-las diante de meus olhos, desnudas, absolutamente indefesas, usando dos recursos e estratégias que qualquer bom conhecedor da alma humana possui. E consegui. Obtive êxito em meu intento, sem experimentar, nem mesmo por um instante, nenhuma culpa ou remorso.
Durante muito tempo, escrever fora um modo de sobreviver à doença. Mas o remédio se tornou ineficaz e o tratamento dispendioso. Repetir os fatos é estupidez porque revela ignorância, a incapacidade de quem os comete, e, ao mesmo tempo, é irritante, porque demonstra a inutilidade do procedimento. Percorro ainda por essas calçadas, nessa manhã de outono, convicto, de que, diferentemente de meus olhos, meu espírito já não vê nenhum caminho adiante. Talvez o vislumbre, quem sabe, quando esses olhos se cansarem da rotina, de encontrar a cada instante sempre as mesmas coisas, as mesmas luzes, os mesmos rostos. Talvez.  Virei avisá-los acaso consiga.

  

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