segunda-feira, 26 de setembro de 2016

QUANDO EU ERA CRIANÇA



Foi muito antes de eu tentar entender porque o Ian McCollouch, vestido de preto, da cabeça aos pés, cabelos grandes, desgrenhados, calçando alpargatas, percorria sorrateiramente aquele corredor, num final de tarde, ou início de manhã... não sei, nunca soube ao certo interpretar todas as cores.
Reprodução
Foi um pouco antes de eu curtir o passeio de bicicleta do Morrissey, em meio à molecada – que muito se parecia àquela a qual eu fazia parte; só não tínhamos, é claro, um Morrissey, ao vivo e em cores. Embora morássemos em Blue City, bem mais propicia às bicicletas que Manchester City.
Foi logo antes, ou muito antes, nem me lembro, porque certas coisas, certos acontecimentos, confundem a nossa mente, de eu ter levado o fora, o maior de minha vida, o decisivo para formação do meu caráter, da Srta. de A. (sem maiores detalhes,as circunstâncias obrigam), enquanto dançávamos, dois pra lá, dois pra cá, no Grupo Ginástico, em meio à tanta gente e tantos olhares – é o que se imagina nessas situações, que todos os olhares se voltam para nós – ouvindo, rosto colado, ainda rosto colado, ouvindo... pra ser honesto ainda ouço, aquela do Tears For Fears.
É, mas o padeiro da rua lá de casa, eu não lembro o nome, mas o leiteiro chamava-se Aléssio. Tinha um barrigão indecente que insistia saltar pra fora da calça. E vivia brigando cargas d’água não sei o motivo, com minha mãe.
E naqueles dias, a tortura da minha vida, ainda não era atravessar os corredores do Chanceler Raul Fernandes, até o Laboratório de Química, mas tirar ao menos o tão desejado 5 (com louvor, em se tratando de minha pessoa) na prova de matemática do Prof. Moacir Rossini. Imagine que estamos novamente em 1977, caro leitor. Sim, faça um esforço de memória, pode valer a pena.
E à parte a péssima notícia (eu nem tinha a dimensão exata do fato) a respeito da morte do Elvis Presley, naquela tarde de Agosto, voltando da escola, notícia que meu amigo Zequinha me dera com ares de dramaticidade, sem que eu entendesse o motivo, havia outras circunstâncias mais favoráveis, digamos assim, para celebrar a vida. E aqui vão algumas delas.
Já lhes falei sobre o leiteiro, seu Aléssio. Esqueci, entretanto, de mencionar, que fora ele quem nos dera de presente o Bandite, nosso cãozinho 7 vidas, que, muito atrevidinho adorava desafiar a vassoura da minha irmã, toda vez que ela cismava varrer a cozinha. Muito valente o cãozinho, só não pode com o motorista do ônibus.
Mas tinha também o Seu Moura, que era a cara, colada e borrada do comediante Bill Cosby, com seu Fordão azul com carroceria, e que vendia-nos aos sábados à tarde os refrigerantes do almoço de domingo. Aquelas garrafas de vidro, grandes, fortes e bonitas. Coca, Fanta, Taí, que eu ficava depois, namorando na geladeira, sob os olhares atentos de Dona Alzira Pignatti, minha mãe. Ah, os almoços de domingo lá de casa!
Um dia apareceu lá no bairro, um senhor mulato, que vendia sorvetes de carrinho da Yopa. O André, um dos nossos, colocou-lhe o apelido de Seu Honesto, porque, desatento na hora de fazer o troco, às vezes, nos voltava umas moedas a mais, o que nos valia uns sorvetes a mais, na sua próxima visita.
O simpático chinês, de cabelo espetado, que uma vez por semana, todo início de noite, batia no portão, oferecendo-se para lavar e passar nossas roupas. Mas mamãe tinha a sua Brastemp automática, já naquele tempo, e a Raquel pra cuidar disso.
Havia os irmãos gêmeos, filhos da senhora gordona que morava na Rua 3, próximo à Avenida Visconde, que todos os sábados, logo após o almoço, vinham para vender os deliciosos e fresquinhos pães caseiros. Um deles, meu xará, depois se tornou carteiro. E do outro, eu nunca mais soube.
Nas manhãs de quinta, passava na rua lá de casa, que na verdade, era avenida, os irmãos japoneses com seu abarrotado caminhão de frutas, hortaliças, verduras e legumes da melhor qualidade. Mamãe era freguesa.
Tinha o senhor com ares de boliviano, que uma vez por mês levava para o meu pai os lançamentos do Círculo do Livro, que somente anos depois, fui entender o valor e a importância que teriam na minha vida.
Não faltava também o menino vendedor de chupetinhas, vermelhas e doces, ótimas para os dentes, digo, para os dentistas.
Ah, não posso esquecer o vendedor de biju, de algodão doce, de pamonha, de queijo, do consertador de guarda-chuvas, panelas, do vendedor de enxoval, que por lá apareciam, vez em quando.
São retratos da minha infância, em meio a vendedores, prestadores de serviços, com os quais, eu me deparava no portão lá de casa, com olhos curiosos, e sem poder dizer nem sim e nem não. Tarefa que cabia ao papai e a mamãe.
Nas férias, brincávamos de bola, quase todos os dias, cedo e à tarde, e se a mãe deixasse também à noite. Quando a pelada não se dava no quintal lá de casa, era na rua de asfalto mesmo. Ou no terreno do Seu Jacó, o qual, nunca vi, e pra dizer a verdade, nem sei se de fato existia. Bem, o terreno existia. E era o nosso Maracanã. Com direito a traves de caibro, roubadas durante a noite, das residências que aos poucos iam sendo construídas no bairro. Era um terreno que ficava na esquina da Rua 3 com avenida 38, e o qual nós roçávamos com os nossos congas, kichutes e bolas de capotão, pra satisfação, quero crer, do Seu Jacó.
Um dia, prometo, conto-lhe sobre os recreios da Escola Monsenhor Martins, onde estudei da 1ª. a 8ª. série, entre 1976 a 1983. E sobre a Praça da Igreja de São Judas e suas quermesses.  Sim, um dia, talvez escreva.

Nenhum comentário:

Postar um comentário