quarta-feira, 19 de outubro de 2016

ENCONTRO NA PADARIA



Naquela manhã, observou com satisfação que seu cabelo, de fato, ficava horrível logo após o corte, mas excelente depois de alguns dias. Nenhum cabeleireiro do Boulevard Jardins poderia fazer melhor que o seu bom e velho barbeiro, o Sr. Rubens. Um homenzarrão com 90 anos de idade, diabético, hipertenso e que em nome da dignidade (um homem vale pelo seu trabalho) se recusava a aceitar o óbvio. Continuava o bom barbeiro a manter sua fiel freguesia, no salãozinho acanhado e bastante simples da Rua 1 com as avenidas 8 e 10, no Centro, em frente à loja de pássaros e pesca.
Reprodução
José estava entre a fiel freguesia do Sr. Rubens. Mas naquela noite, ele tinha um encontro marcado com a ruiva da perfumaria, cujo abraço de 8 segundos, não mais, sempre lhe fazia muito bem. Por isso a sua preocupação diante do espelho. Não poderia haver falhas. Tudo deveria sair como planejara à exaustão, durante todo dia. Ensaiara com dedicação e grande interesse cada gesto, olhar, palavra, tudo.
Para a ruiva da perfumaria, aquele encontro não significava rigorosamente nada. Mas para ele, um minuto ao seu lado, um minuto merecedor de sua atenção, olhar, palavra, gesto, significava muito coisa. Embora, jamais, se sentira à vontade ou confiante, para lhe externar os seus sentimentos. Amizades são eternas. Amores nunca. Aprendera com os livros, as músicas e os filmes. Jamais, entretanto, através da própria experiência, bem pouca, por sinal, quase nada, ao menos ao que diz respeito aos melhores sentimentos que um ser humano pode trazer em seu coração.
Com algum desconforto, àquela altura da vida, a meia idade, que via se aproximar e a temia como qualquer mortal, era obrigado a admitir sua capacidade de operar milagres na vida das outras pessoas, e nenhum, nenhum mesmo, na sua própria vida. Continuava se considerando um derrotado. Tudo o que tentara na vida dera errado. Fora assim no amor, aos 19 anos de idade, o único amor. Fora assim no casamento, nada de amor, uma necessidade. Fora assim como filho. Só depois de muito tempo percebera a importância daqueles dois em sua vida. Fora assim como pai, nunca fizera nem conversara, o que imaginava, tinha certeza, algumas vezes, o que todo pai deveria. Fora um péssimo jogador de futebol, não servira para jornalista. Um medíocre escritor, um sofrível poeta, um pretensioso filósofo que jamais conseguira elaborar numa frase condizente e provida de clareza e coerência o seu pensamento, o qual, verificando, certa ocasião, certos livros, descobrira que nem era assim tão seu. Mal sabia na sua tola ingenuidade que a filosofia é feita o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou o cavalo cego tentando encontrar o bebedouro.
Enfim não prestara pra nada. E já tinha quase 50 anos de idade. Já havia, portanto, atravessado a metade do caminho, certamente. Ocorre que em tempos mais remotos, ruminava em si certa vergonha desta situação humilhante que deliberadamente, jogando alto com a vida criara para si mesmo, e que agora, já perto da casa dos cinquenta, não conseguia mais verificar a presença da vergonha necessária em seu íntimo, em meio a tantos outros sentimentos confusos, contraditórios e inconsistentes em demasia que alimentava na sua solidão espontânea.
Fácil seria estragar um pouco mais a vida. Mulheres haviam por toda parte. Algumas bonitas até. E outras, interessantes e inteligentes. Mas nada o convencia que qualquer uma delas, não seria como todas as outras. Tudo muito bonito e genial, de início, e depois... Bem, o problema do romance real da vida, é que diferentemente daqueles encontrados nos livros, nos filmes e na música, ele não conhece a palavra “fim”, ele se sujeita descaradamente ao depois.
E aí tudo se complicava para José, em sua mente confusa e em seu coração medroso.
Porque, afinal, ele pensava, seria diferente com a ruiva da perfumaria? Apesar do seu abraço de 8 segundos, que tanta paz, conforto e segurança lhe transmitia. Apesar daquele seu olhar e daquele seu sorriso, os quais encontrava até mesmo no silêncio e no escuro do quarto, onde atravessava noites, sintonizando várias estações de rádio, a procura da música perfeita que lhe permitisse lembrar do olhar, do sorriso e da voz dela. E reproduzi-los diante de si, ali, naquele mesmo quarto escuro, mas então, como que por encanto, repleto de luz.
Nessas horas, todos os defeitos dela, pois que existiam, e não eram poucos, desapareciam, porque o fato de poder sentir novamente a presença dela tornava a vida perfeita e o mundo completo.
Mas havia o depois, que comparecia à sua realidade, sem pedir licença. Fosse com o chamado do telefone, o barulho das panelas do vizinho, o cão, impaciente, latindo na rua, o sorveteiro e seu apito inconfundível, o carteiro a bater no portão; mal sabia o carteiro, que, naquele mês, ele havia consertado a campainha.
E tudo retomava naturalmente o devido espaço, na insignificância da sua vida, da sua presença pouco percebida no mundo.
Aguente firme. Fora o melhor conselho que encontrara nas sagradas escrituras. Aguente firme. Tudo passa. Tudo se acaba. Por isso, meu velho (agora era ele dizendo de si para si mesmo), ama! Ama que entre amar e nada, amar é alguma coisa. Deve fazer algum bem.
Tais suposições serviam de consolo nas horas mais difíceis, aquelas em que, o silêncio cria um vácuo na consciência, e a solidão esmaga fazendo em pedaços ofertados aos abutres famintos da indiferença alheia, um pobre coração, descrente do bom e do belo, descrente dos homens e das suas possibilidades, descrente da vida que se recusa a sorrir para aquele que tanto a amara algum dia, tão distante, que nem se faz lembrar exatamente qual.
Enfim, já era quase 9 horas, o horário marcado para o encontro. Um café na padaria, a alguns quarteirões de sua casa. José mais uma vez não estava certo se iria àquele encontro. Talvez não. A ruiva da perfumaria poderia talvez desmanchar o seu cabelo, em meio àquele abraço de 8 segundos. Justamente naquela noite, a qual, diante do espelho, ele se achara tão bonito.

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