sábado, 29 de outubro de 2016

ESCREVER É A CURA

O escritor talvez seja o único artista que não tem domínio sobre sua obra e por ela recebe, quando muito, míseros 10% do preço de capa. É o mais cobrado de todos os artistas, pela sua crítica especializada, pelo público e pelos palpiteiros de plantão. É o mais sujeito à regras, todas elas. E agora, em nome da boa vizinhança, deve se submeter ao tenebroso e asqueroso politicamente correto, sob pena de ser confundido como enviado do mal ou a serviço de tal. E mesmo assim, o escritor se sujeita a tudo isso, por um único motivo: a necessidade de escrever. Algo que é somente seu, que ele não divide com ninguém. Ao contrário de outros artistas, o escritor precisa da solidão para conceber o seu trabalho. Ele precisa conhecer e viver sobre aquilo que escreve, para que não soe falso ao leitor, e não seja hipócrita consigo mesmo. Quase sempre, as suas escolhas e decisões não são compreendidas. Mas a ele não importa que sejam. O que vive um escritor, quando escreve, nenhum outro artista vive. O escritor, ao escrever, é a soma de todos os seres, é o retrato fiel e decomposto de todos os ambientes. Ele cria um mundo, que só existe em sua mente e em seu coração, e, em sendo ele suficientemente bom, consegue transportar parte desse mundo ao leitor, a ponto de envolvê-lo e encantá-lo. Um escritor, salvo aqueles que vivem do ter e não do ser, em geral não conhece a felicidade. Ama, sem ser amado. Dá o melhor de si sem nada receber em troca. Mesmo assim, mesmo depois de morto, sepultado, esquecido, jamais compreendido e, muito menos respeitado em sua individualidade, ele continua sendo um escritor, caminhe ele sobre a ponte, em direção à outra margem do rio, entre as árvores, ou viva miseravelmente, sob ela.

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