sábado, 15 de outubro de 2016

JOÃO, 16



Eu compreendo
Eu compreendo todos os vexames, todas as ofensas,
Todos os deslizes e todas as descrenças
Compreendo o incerto, o duvidoso e o repugnante
Eu compreendo todas as mágoas, contidas e exacerbadas
Eu compreendo e aceito todos os conflitos
Toda a inconsequência deles resultantes,
As feridas abertas, profundas e que não se fecham
Eu compreendo todas as dores,
Embora não as aceite
E compreendo todas as lágrimas, refutadas
Espargidas ao vento, inclementes lágrimas, lancinantes dores
Eu compreendo os fracos, os tolos e os indecentes
Eu não me chamo Oscar (por favor, plebeu, acerte a pronúncia: Oscar)
Já me chamei, contudo, Ernesto, vejam só, que horror!
Mas eu os compreendo
E os compreendo, porque assim como tantos outros,
Na verdade como quase todo mundo... anote: todo mundo
Nasceram chorando e morreram fedendo
Eu compreendo quem chora sobre um caixão
E compreendo quem sobre ele, cospe
Eu compreendo a fera que ataca e dilacera
A fera faminta, de amor, atenção e carinho
E compreendo a presa que foge, corre, geme
De medo, dúvida, incerteza e ressentimento
Há quem julgue a terra plana
A vida, uma só vida, vivida, mas vejam...!
Eu os compreendo
Porque a tolice alimenta a necessidade
De buscar por algo maior, translúcido, etéreo
Sem forma definida, cor, começo, meio, fim
Que eu não compreendo,
Embora eu tolere essa coisa, esse algo maior
Que todos dizem existir
Eu compreendo
Apenas a ideia, é verdade
Porque em resumo
Eu compreendo a tudo e a todos
Porque pensando bem
Tudo não passa mesmo de ideias
Sob as mais diversas formas
Ideias, aspirações
Que não se realizam quase todas elas
Mesmo que paridas do anseio
Comum a todos nós: de ser feliz
Isso eu compreendo
Eu compreendo os que baixam os olhos antes da hora
Já fui um deles,
Talvez seja o próximo
Eu compreendo
Há marcas profundas que trazemos de longe, de ontem
Mas que permanecem, escondidas, não reveladas
Até que despertam
Trazendo toda sua fúria, inquietação
Fazendo-nos rasgar o véu da ignorância
Desnudando-nos à vergonha e incompreensão alheia
Eu compreendo
O que se passa em mim, à minha volta
Sim... eu compreendo, mas talvez não baste
Alguém mais compreende?


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