quinta-feira, 20 de outubro de 2016

GAROTO SENSÍVEL



Um jeito diferente de olhar
Um modo especial de fazer, todo seu
Ao bater da porta, o corpo estremece
Um arrepio corre a espinha, sobe até a nuca
Corre o sangue, quente, para onde tem de correr
Mas é um sonho do qual desperta
Com o barulho dos carros, na rua lá embaixo
Vê com descrença, que o dia nasce lá fora, mais um
Olha em redor, e vê tudo como está
A bagunça de sempre
A ausência que insisti em ficar
A felicidade, demora, não vem
Levanta-se da cama então,
É preciso continuar
Alimentando o que não pode perecer
Calça os chinelos, por que?
E olha-se no espelho com preguiça
Admira o corpo nu, o seu
Imaculado, intocado, ao menos por uma noite
Vai para a janela, acende o cigarro
A espera das ideias que o conduzirão
No mundo hostil, por mais algumas horas
Dali a pouco, a água fria do chuveiro, se houver
O trará de volta à consciência
Necessária à sobrevivência
E tudo irá se repetir
A dor e a rotina, a mesmice
Das coisas e dos sentimentos
Que resistem abandoná-lo
Talvez um filme, achado ao acaso
Um bate papo no corredor, com a pessoa, ao lado
Do qual sabe nada
Apenas que possui um jeito diferente de olhar
Mas não um modo especial de fazê-lo
Sentir a liberdade que acreditou um dia
Pudesse ser a sua companhia
Vítima, dos seus próprios erros
E desejos inconfessáveis
Do medo que o acompanha
Desde os primeiros dias, as primeiras tentativas, em vão
O primeiro sonho que lhe trouxera
Aquele jeito diferente de olhar
E um modo especial de fazê-lo
Sentir-se feliz
Ou qualquer coisa que se confunda
E se pareça com isso
Busca insana que o passar dos dias
Torna mais difícil, menos provável
Aquele jeito diferente de olhar
De fazê-lo sentir-se diferente... diferente, único, o melhor
Talvez o encontre
Como um filme, ao acaso.

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