terça-feira, 27 de dezembro de 2016

NASCER, VIVER, MORRER... É ISTO, MESMO?



Olhe-se no espelho ao final da jornada, e admita:
Você é gestado nove meses,
Antes, porém, é reduzido a quase nada, apertado, sufocado, ameaçado
Nove meses claustrofóbicos, inconsciente, e com destino incerto
E sai, depois, aos gritos, rindo não, mas, chorando,
Por um orifício ampliado, e o faz de modo humilhante, de cabeça para baixo
Mas, antes, por uma razão desconhecida
Antes de se tornar a causa de uma dor parida
Você – lembre-se – disputou por sua vida
Com milhares de outras
Aspirações de vida. E venceu.
Por razões que nem você, talvez Deus, quem sabe, saiba
Então você cresce disputando a atenção com outros, maiores e melhores
Que chegaram antes, e você luta, e vence. Vence?
Nem a todos eles. Mas, de algum modo e com muito esforço
Mas, você aprende antes, a ficar de pé,
Andar, falar, pedir, reclamar, fazer
Aprende a sorrir. E a chorar.
Conhecer, difundir, duvidar, trabalhar. Sempre.
Convivendo com tantos outros iguais a você
Nem tão iguais assim.
Competindo com eles, passa pelo tempo.
Tentando, por vezes, ajudá-los
E por vezes, destruí-los
Você segue os seus dias incertos
Tentando melhorar-se como pessoa humana, às vezes
Quando a vida lhe cobra isto
Pai, filho, irmão, marido, esposa
Patrão, empregado, mestre, aluno
Você tenta sê-los o melhor que pode
Porque o convenceram disso desde o início
Porque o meio, feito dos outros que você nem conhece,
Nem sabe se realmente existem, lhe exige isso
Passa o tempo, e você percebe que todos os seus sonhos
E suas aspirações se reduzem a nada
Porque antes de pensar e de cuidar
Delas e de você, você precisa cuidar dos outros
Corresponder aos outros, àquilo que eles esperam de você.
E há momentos que, em meio a tantas atribuições e expectativas
Sob sua responsabilidade, você tem dificuldade de se achar, de se lembrar
De que você existe
Chega tempo em que algo acontece
Ou você adoece, e a vida, aquilo que nunca foi
Você percebe, resignado, que jamais será.
Obediência é o que lhe resta.
Então, de repente, mas nem tanto, escurece
E você desaparece
E se não pudesse despertar, em algum lugar, sei lá onde
E recomeçar de onde parou
Então, de que valeria tudo isso, toda essa trajetória, a vida?
De que valeria, se, a noite que chega, permanecesse, sempre.
Não. Recuse a ideia. Não pode ser isso.
Deve mesmo existir a página seguinte
Deste poema que se repete, repete... chamado Vida

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