sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A BATALHA DAS IDEIAS



Não se espante, não é só no Brasil. É uma tendência mundial. Tudo o que estava reprimido há séculos, seja na política, nas artes, no esporte, na ciência ou qualquer outro segmento da sociedade humana se levanta, reivindica atenção e espaço. Mas é tudo absolutamente normal. É a prova inconteste de que mentira não resiste ao tempo, e que reprimir e punir não transformam o comportamento humano quando em dissonância com o padrão estabelecido.

Vivemos um tempo em que todas as opiniões devem ser consideradas e apreciadas de maneira isenta, sem pré-conceito. A verdade nunca foi tão relativa. A noção de certo e errado é debatida com entusiasmo não mais por filósofos, religiosos e acadêmicos, mas por gente comum, nas redes sociais, e isso incomoda aqueles que até então se imaginavam detentores do conhecimento, da suposta verdade tal como estabelecida, e de sua propagação.
A humanidade não aceita mais ser conduzida, seja por ideologias políticas, seja por dogmas religiosos. Isoladas ou em grupos, utilizando-se dos modernos meios democráticos de comunicação, que lhes permite a livre expressão de suas ideias e crenças, as pessoas vão provocando as discussões dos mais variados temas, e, por conseguinte, uma revolução cultural, sem armas e sem confrontos que não seja a divergência de opiniões.
Enquanto lunáticas autoridades governamentais, totalmente desconectadas com essa realidade, ameaçam a continuidade da existência da espécie humana com possível uso de armas letais de grande alcance e destruição, a maioria das pessoas, trabalha, idealiza, busca novos caminhos para uma convivência pacífica e harmoniosa que supere as diferenças de opinião e comportamento.
A liberdade para disseminar ideias e para agir em nome dessas ideias, porém, pressupõe consequências, pelas quais, nem todos que a reivindicam estão dispostos a pagar o preço.
Mas, é possível que num futuro breve, o que causa espanto e escândalo, seja considerado absolutamente normal. Não há mudança que não exija adaptação e um certo grau de tolerância e otimismo, que advém da certeza de que tudo passa, tudo se renova, tudo se aperfeiçoa. Porque o progresso é a principal característica da civilização humana. E é muito bom que seja assim.

NOSSO TEMPO



Em nosso tempo
Todas as liberdades
As faces e as vísceras expostas
Despertam a rebeldia
Aprisionada e excluída
Nos porões fedorentos da repressão
Curada na pele, marcada por mãos 
Pesadas e arrogantes, 
Audaciosas que se imaginam 
Portadoras da cura e da justiça
Hoje, cartas na mesa, dores expostas
Armas empunhadas, nas ruas, 
Olhos odientos, punhos cerrados, insultos
Almas rendidas, sem esperança
Pedras lançadas, mentiras
Verdade, qual? A minha? A sua?
As ruas e calçadas manchadas de sangue
Seu direito, meu direito, desarmonia
Um mundo redondo onde faltam espaços
Absurdo!
Vontades e verdades se acotovelam
Minha voz, mais alta que a sua
Janelas abertas, portas escancaradas
E o vento, vem do alto, passa, faz estragos
Machucados, feridas
Deixadas abertas, sem cura
Disputa, e todos vencidos
Rostos ao chão, corpos espalhados, inertes
Ilusão

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 18/10/2017, à pág. 2

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

FUTEBOL COM OS PÉS E NA CABEÇA



O Cruzeiro sagrou-se pela quinta vez campeão da Copa do Brasil, na última quarta-feira, 27, diante de quase 60 mil pessoas que se acotovelaram no Estádio Magalhães Pinto, mais conhecido como Mineirão, em Belo Horizonte/MG.

Contudo, o futebol apresentado pelos finalistas Cruzeiro e Flamengo, deixou muito a desejar. Quem se importa com isso? Pouca gente. Finais não costumam ser geralmente jogos de encher os olhos do torcedor.
Aliás, o futebol brasileiro, já faz muito tempo, não empolga o torcedor. Estádios modernos localizados nos grandes centros atraem mais o torcedor do que o próprio futebol. Esse talvez tenha sido realmente o único benefício da Copa do Mundo de 2014. Continuassem existindo aqueles estádios antigos e depauperados e o público presentes na arquibancadas seria bem menor.
O futebol hoje é um negócio altamente lucrativo. Em países europeus movimenta anualmente cerca de R$500 bilhões. A Inglaterra, que tem o mais badalado campeonato nacional da atualidade responde por cerca de 30% e a Alemanha, 20% desse faturamento. O Brasil, nada mais que 2% de toda a receita gerada mundialmente.
Em termos de gestores de negócios quando o assunto é futebol, os clubes brasileiros ainda se acham no tempo das cavernas. E bem poderia ser diferente, fossem os clubes dirigidos por profissionais qualificados na área de gestão esportiva. Mas, como tudo neste país, a política se faz presente e prevalece. E impede que os clubes brasileiros, de fato, se profissionalizem.
Por tudo o que representa para o País, o futebol brasileiro deveria receber um tratamento diferenciado que ultrapassasse as fronteiras do desporto e do negócio. Deveria ser visto e tratado como fator cultural e oportunidade de instrução para crianças e jovens.
O futebol, se levado a sério como cultura, poderia ser ensinado nas salas de aula, como matéria do currículo escolar, mas com ênfase no seu aspecto histórico, humanístico e social. E assim, contribuir para a formação de futuros adultos com a mentalidade sadia que a prática do desporto e o exato entendimento do que ele representa para a sociedade humana, desperta e estimula.
A exemplo do que se dá nos EUA, com o basquete, poderíamos ter por aqui o futebol universitário, que, sem dúvida, seria uma oportunidade a mais para que os jovens tivessem uma perspectiva positiva de futuro que agregasse o desenvolvimento da sua vocação profissional e esportiva.
Estamos longe disso, sem dúvida. Mas o esporte, e com o futebol não é diferente, nos mostra todos os dias que os desafios existem para serem superados.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 04/10/2017, à pág. 2

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

DEPOIS DE MORTOS,



Depois de mortos, seremos perdoados
Pelos sonhos desfeitos ainda na infância
Que não chegaram a conhecer o frescor da juventude
Seremos perdoados, depois de mortos
Pelas palavras esquecidas no momento mais importante
Quando olhares em suspenso, em nossa direção
Esperaram em vão por algo que jamais acreditamos
Depois de mortos, chorarão sobre nós
E dirão coisas sobre nós
Seremos perdoados por aqueles que mais amávamos
Eles irão, e com eles, as nossas lembranças
Que depositamos no passado,
Como flores que se depositam sob a lápide dos esquecidos
Flores sem perfume, sem nome, sem lágrimas
Depois de mortos, escreverão sobre nós
Uma ou duas frases, pra dizer como éramos bons
No ofício de enganar as alminhas puras, sem rumo
À procura de um porto, seguro, firme, forte
Que acaso, nunca fomos, nem pretendemos sê-lo, nunca
Seremos perdoados pela sede de viver
Quem em nossos corações jamais encontrou motivo, esperança, portas abertas
Seremos esquecidos em um ou dois dias, duas noites, uma noite
As doze horas escuras do dia que passarão formais, solenes, sem vida
Como o discurso que farão sobre nós, tentando encontrar o que não existe, tentando ver o que nunca houve
Depois de mortos, esqueceremos as vontades reprimidas
De nada nos servirá a vergonha,
Nem motivo de aplauso, nem de vaia, quando muito, indiferença, silêncio, não provocado, espontâneo
Tanto quanto na mesa de bar, ao falar sobre aqueles que partiram antes, sorvíamos o vinho de péssima qualidade e fumávamos o cigarro que cabia em nossos bolsos
Seremos ultrajados, despidos das lembranças, por todos aqueles que fizemos rir
Que num final de tarde, no meio de uma rua qualquer, se depararam com o nosso ridículo
Mas que isso importará à nossa consciência culpada, depois de mortos?
Nada! Nada importará, e a cena se repetirá:
Nem o remédio caído atrás da cômoda, a roupa suja debaixo da cama, nem as anotações em guardanapos, toalhas, papéis encontrados no chão, nada nos trará à consciência
Depois de mortos, de que adiantará a vela que vai se apagando no quarto escuro
Porque o vento que entra forte, sem pedir licença, anuncia a proximidade do inevitável
De que adiantará a procura insana do remédio que não cura
Porque a cura, não está no remédio, mas na vontade que falta para continuar
Seremos perdoados por nossas faltas, todas elas, das menores às maiores
Seremos perdoados porque amamos em algum momento, e este foi o nosso erro
Seremos perdoados porque acreditamos na poesia dos livros de Allan
Seremos perdoados porque...
Ousamos conhecer o lado de cá da vida, onde sabíamos de antemão que não encontraríamos felicidade
Depois de mortos, que nos resta, nos vestirmos de branco, baixarmos a cabeça, o primeiro passo nos resta, adiante, o que virá depois?

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

AMORES DE MI VIDA



Amo as pessoas que excedem
Amo os pecadores
Amo os impuros, os sedentos de amor, os incompreendidos
Amo o cair do pano, a nona hora, quando tudo termina
Amo os umbralinos, lugar melhor não há de se encontrar poesia
Amo os poetas e a poesia
A poesia cantada, musicada, declamada, a poesia
Amo os que se recusam, os que dizem não
Amo os que rasgam o véu da intolerância e da incompreensão
Amo os perdidos
Os que sem rumo vagueiam, são filhos de Deus, muito mais
Do que aqueles que se acham... Filhos... de Deus,
Amo a vela se apagando, o último suspiro
O derradeiro acorde, a letra final, o ponto final
Amo tudo o que é contra, tudo o que vai em sentido contrário
Amo a revolta, desconfio da humildade, travestida de hipocrisia
Amo a coragem, dos que se atiram à vida
Presente em cada momento, cada olhar, cada respiração
Cada não que se recebe daqueles que tem o poder
Efêmero, temporário, transitório, reles poder
Amo a página acabada, a página virada, a rima esquecida
A palavra em suspenso, a ideia contida
Que desce latrina abaixo
Toda vez que a inspiração se transforma em desilusão
Um copo, dois copos, decepção
Amo a vontade parida, na realidade dorida
Amo o amanhã que sempre chega e nada traz
Nada de novo, e de belo, nada.
Amo a Deus, mesmo sem saber o que é, seja lá o que for
Se tudo ele começou, saberá como terminar
Amo, amo sim, muito, quem se dispuser, depois de mim
Apagar a luz
Amo a independência, a mentira
Amo os livros que nunca leio, que tomo e não devolvo
As roupas esquecidas no armário, os calçados debaixo da cama, empoeirados
Amo o alimento estragado, repasto dos cães, perdidos na noite, já fui um deles
Eu sou um poeta, um escritor medíocre, mas verdadeiro, não esperem outra coisa de mim
Boa noite