domingo, 26 de novembro de 2017

POEMA DO ESQUECIDO



Ninguém me segue, e isso é bom;
Ainda que eu olhe para trás e veja vultos;
A espreitar-me, atentos, acompanhando meus passos, à distância;
Ninguém me escuta, e prefiro que seja assim;
Nessa longa trajetória, vou deixando à eternidade o eco de minha voz sufocada;
Para que um dia, alguém se dê conta do meu grito por socorro;
Ninguém me vê; ótimo, passo despercebido, deixando marcas que, um dia, talvez, alguém as encontre; e se não encontrá-las, nada terás perdido, nem tu, nem eu;
Talvez encontre ainda um rastro de sangue na madeira, uma gota de suor, em suspenso, como o orvalho da noite que hesita em se derramar, da folha que o sustenta;
Ninguém me entende, mas que bom! Não desejo entregar respostas a mentes desocupadas, desejo provocá-las, instigá-las a pensar, a repudiar-me. Não é a mim que lhes ofereço, são as palavras;
Não vêm as palavras numa bandeja de prata, nem acompanhada de pratos, louças e talhares;
Vêm despidas de sensatez, de lucidez, vem confusas, pois é como as recebo;
Desde pequeno treinado a obedecer, a responder e agir, e reagir conforme padrões estabelecidos;
Autômato, programado, treinado a aceitar o que outros dizem;
A sorrir, abraçar e ouvir; e calar diante dos fatos, e não ver o que vê; esquecer sem nada sentir; melhor;
Quando percebi que podia ser diferente, eu pulei do trem, sabendo que jamais tornaria a alcançá-lo. Sabendo que, bem possível, não chegaria ao destino;
E se chegasse, estaria cansado, exausto, ferido, com as roupas rasgadas, puídas, sujas; o corpo, prestes a deixá-lo, fedendo;
Sozinho. Calado. Acompanhado da minha sombra, quando muito. Faminto. Sedento. Sem trégua, porque ninguém me vê; ninguém me ouve; assim escolhi, quando pulei do trem; tinha 13 anos.
E as palavras, vinham como os vultos. E desapareciam como a luz do sol entre as copas das árvores;
Não me saciavam as palavras. Mas me arrancavam à tristeza. Era quando eu conhecia por um instante o que era a liberdade;
Quantas horas são, pergunta-me o homem, sentado na calçada, todos os dias, ao final de tarde;
Nem paro para responder-lhe;
Sempre com pressa, sempre desatento;
Não procuro ver as pessoas, nem ouvi-las, e nisso nos entendemos;
Nossa distância impercorrível, nosso silêncio mórbido;
Tão denso e profundo este silêncio, que até posso vê-lo como os olhos cansados do velho que me pergunta as horas, e ouvi-lo como a fúria do vento invisível;
Buscando longe de mim um lugarzinho onde possa apoiar papel e lápis, e escrever;
Escrever...
O que significa subtrair-me da realidade imposta, não sei por quem, nem o motivo, não me interessa;
Com o destino, acerto as contas depois;
Aprendi a caminhar fora do trem, tropeçando nos cascalhos, esbarrando nas encostas, caindo, e levantando, indo...

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O MUNDO E EU, E AS PALAVRAS



Ouça...
Está morrendo o mundo
O mundo tal como o conhecemos
O mundo de ouvir música, de ler poesia,
O mundo de conversar, perto, olhando nos olhos,
O mundo de amar, tocando as mãos, deixando que as mãos toquem cada parte estremecida e molhada do corpo;
Está morrendo o mundo que nos pariu, e nos acolheu;
O mundo de valores absolutos e não relativos;
O mundo seguro, palpável, uniforme, separando certo e errado, dividindo uns e outros;
Está morrendo o mundo que aprendamos a amar e odiar;
O mundo onde podíamos andar, à noite, de dia, sem temer a sombra, a própria sombra;
O mundo onde havia casas, carros, pessoas, trabalho, estudo e cada coisa ocupando o seu espaço;
Está morrendo o mundo que procuro entender. Agora, porque antes, entender o mundo, nenhuma importância tinha;
O mundo onde havia rios, árvores; o mundo onde o mar beijava a praia ao invés de destruí-la;
O mundo onde havia crianças que eram crianças, que não sabiam que eram crianças, porque como crianças viviam, e, portanto, não importava saber que eram crianças;
Está morrendo o mundo do qual procuro fugir, mas, tenho uma pergunta...
A cada manhã, o mundo onde acordo, eu o vejo morrendo. Não sangra, nem agoniza; não reclama, não pede, obedece e espera;
Vejo a morte que se aproxima do mundo, faz balançar os galhos das árvores, balançar portas e janelas, faz abalar corações desprotegidos; faz as almas que não amaram o mundo voltarem-se para dentro de si, como se pudessem fugir do mundo e da morte que dele se aproxima;
Como se a proximidade da morte, do mundo, deixasse o mundo calado, inerte e escuro; talvez, cinza;
Qual é a cor da morte, afinal? Eu não procurava saber, até entender que está morrendo o mundo;
E não me lembro de quando isso se deu, pois, eu também não amava mais o mundo;
Deixava que tudo acontecesse e levasse consigo em pesadas mochilas a essência e o resto das coisas que o mundo julgava que lhe pertencia;
E me abandonasse a mim mesmo, as coisas. E abandonasse o mundo. Mas o mundo eu sequer conhecia, não me causava espanto nem interesse saber da sua existência, cuja dimensão não ia além do que eu sentia, pensava e via, e podia, eu, tocar com as minhas mãos, e modificar com a minha vontade, o mundo;
Mas agora que soube e vejo que o mundo está morrendo, agora tudo faz sentido;
Cada palavra, cada suor, cada lágrima, cada esforço, cada riso, cada loucura, cada vez que abri os olhos pela manhã, e fui incapaz de entender que lá fora havia um mundo, à minha espera, além das cortinas e das janelas, além da porta, da escadaria que me levava ao chão do mundo que eu pisava, todos os dias, indiferente se os minutos passavam e se perdiam, se a vida escoava por minhas mãos, a vida, tão suja e tão marcada, quanto o chão que eu pisava;
O mundo e eu nos entendemos, ao menos penso que sim;
Ele arranca tudo de mim, e me põe a nu, me olha com cinismo e fome, e sede;
E me aponta, todos os dias pela manhã, o que sou e o que me falta para pagar minha dívida com o mundo;
E vai além o mundo, me faz lembrar o que desejo e não posso.
O mundo me insulta, me surra, até colocar-me desacordado, caído, de joelhos, num canto da parede, ou de cara no chão.
Afinal, o chão lhe pertence. E me abandona às palavras, o mundo. As palavras que não ouço dizer e então as escrevo. E nelas aprisiono a dor e a revolta.
Olho para os lados, tudo se repete;
Ouça...
Está morrendo o mundo e isso já não importa, porque tenho as palavras que escapam ao mundo. E as palavras agora são minhas e é tudo o que tenho;
As palavras me guiam e me justificam perante a existência;
Vão para longe as palavras e me levam consigo. As palavras me dominam, me envolvem e me submetem. Ora são boas, as palavras, ora são más. Límpidas como a luz do sol, no seu melhor instante. Até que surja uma nuvem que as encubra e as separem de mim;
Levam as palavras que são minhas, essas densas nuvens. Passo os dias a postos e as noites acordado, à espera das palavras que são minhas e demoram a voltar;
O que será das palavras da próxima vez? Morrerão comigo ou chegarão ao papel?
As palavras sabem que o mundo está a morrer?
Se ficarem comigo terão uma chance, desde que eu não me canse delas;
Ponho-as de volta no mundo e as palavras morrerão junto;
Está morrendo o mundo, o mundo como o conheci;
E vendo-o morrer, calmo e lentamente, já não me importam as palavras;
Mas, enquanto as palavras estiverem dentro de mim, a respirar, terei uma dúvida:
Qual de nós, o mundo que morre, acolheu primeiro?



domingo, 12 de novembro de 2017

BATE-ME À PORTA



Preciso me agarrar às coisas que me são caras
E não são pessoas, nem coisas, nem lugares
É algo que vai aqui dentro, de mim,
Em algum canto da minha mente
Ocupando algum espaço no meu coração
Que eu mantenho trancado
Desconfiado da vida, das pessoas e das coisas, que sou
Diz-me que Deus não erra
Qual o motivo o teria levado
A trazer-me para cá
E permanecer, num estado de imanência
Entre pessoas, coisas e lugares
Respirando o ar que nada me diz
Vivendo, como um vegetal aprisionado no vaso
Com as raízes que não tem para onde sair
Preciso me agarrar às coisas que me são caras
Elas permanecem dentro de mim
Trago-as de longe, muito longe
Tenho a roupa suja, a alma cansada
Resignado, à espera, da dama libertadora
Que por certo virá
Ela chega, bate-me à porta, sorri.