terça-feira, 10 de janeiro de 2017

69, DESTINO



Não vou à procura
Não sou Jesus!
Não busco por olhares de encontro ao meu
Nem de mãos que me reconheçam ao menor contato
Se tu me amas, então venha até mim
Se queres me falar, fale, eu te escuto
Não importa a distância possível entre nós
Tanto seja maior, menor será à minha vontade
Não é cansaço o que me impede
É decisão
Um modo de ver e de viver
Pessoas e coisas, e acontecimentos
Não vou à procura
Não espere isso de mim
Durante muito tempo eu o fiz
Mas feito águas do oceano
Acabei voltando
Voltando, às vezes com fúria, às vezes calmo
Voltando para mim mesmo
Único lugar em que apascento as minhas ovelhas
São tantas
E vejo em cada olhar,
E sinto em cada coração
Uma vontade de viver
Uma vontade de morrer
Que às vezes me confundo entre elas
Uma brisa, um final de tarde
Percorrendo a cidade esquecida
Onde os mortos não falam
Perambulam, e eu os vejo
Exalam o seu odor
A sua dor repugnante
Que, por vezes, me confundo entre eles
Não vou à procura
A vida, se existe, é como o livro quando bom
Termina onde começa
Insinua mas não realiza
Concebe e mata
Vê, sente, e não diz
Talvez porque não ache palavras
Ou não dependa delas
Não vou à procura
Não, não espere isso de mim
Se quiseres venha
E o receberei
Se ficar, todavia, irás se arrepender
O perfume da rosa colhida, ferida
Não dura um instante
Inebria, quando muito
Nada que o vento não leve
Talvez me leve
Fosse o vento, eu não ousaria
O mato está crescido nas encostas do muro
A grama nasce na calçada
Longe, uma voz anuncia
As horas que se aproximam
Da dor insaciável
Há de ser
A vida termina onde começa
E quando acontecer
Eu terei de novo o leste
Onde o sol nasce
Diante de mim

Nenhum comentário:

Postar um comentário