sábado, 21 de janeiro de 2017

CONVITE



Vá escrever. Vá doar-se aos anseios alheios. Empreste, entregue, o seu corpo e a sua consciência para que estranhos façam dele pão e circo.
Acredite, sim, no amanhã, no plantar e colher. Acredite no reconhecimento de quem o detesta e o inveja e o admira.
Faça de graça, o que outros fazem igual, bem menos, bem pior, e recebem por isso.
Acredite que o sorriso e o abraço que lhe oferecem e o elogio que lhe dirigem, lhe trará algo mais, do que aquilo que o tempo e o vento levam num instante, conhecido como satisfação.
Sujeite-se às palavras, às regras, ao preconceito alheio para transmitir o mesmo, as mesmas dores, as mesmas ideias, os mesmos sentimentos, que outros fazem com menor esforço, em menor tempo, rabiscando, borrando, tintas coloridas em telas, painéis e muros: brinquedinhos que satisfazem aos olhos, jamais atingem a mente e o coração de quem se depara com eles.
Você expõe as suas entranhas. Escandaliza, estimula a reflexão, escancara a dor, revela a possibilidade. Você mente e eles acreditam. Você cria e eles devoram o que julgam lhes pertencer. Você se dá inteiro. E o que ganha com isso? Senão aquilo que o tempo e o vento levam num instante.
Você merece. Merece toda sua dor, revolta e frustração. Você quis fazer por outros, aquilo que eles, jamais, fariam por você. Nenhum deles. Nem os próximos, nem os distantes. Nem os que lhe chamam de irmãos, nem os que lhe chamam de amigo.
Sim, você merece. Bem feito pra você. Acreditou na poesia dos outros, esqueceu-se da sua. Acreditou que se divertiria no inferno, esse inferno; acreditou que o tornaria puro e belo, que daria à ele a sua feição, que o submeteria às suas crenças e convicções.
Tolo! Sujeitaste ao engano. Vá...!
Vá escrever. Continue. É o que lhe resta. Até que a megera dama, revestida de branco e de flores, e versos nos olhos e verdade nos lábios venha, sorridente, para libertá-lo.
Dilua-se pouco a pouco, nos seus escritos, esconda-se neles, faça deles o esconderijo da sua vergonha, da sua raiva, da sua feiura.
Não reclame, foi a sua escolha.
E se houver mesmo algo depois disso, provoque, desafie, avance sobre, aos murros e pontapés, ou na ponta dos pés, feito um matador, mas, não subestime a realidade.
Talvez ela desista de você, talvez não o veja, não o reconheça, passe ao largo.


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