domingo, 4 de junho de 2017

CONFISSÕES DO SR. MAX - O 2o. DIA



Você vai envelhecendo e vai ficando chato. Continua sendo o mesmo, gostando das mesmas coisas, mas elas, de tão batidas, repetidas, caíram na vala comum da mesmice, o atoleiro da vida, a terra revolvida, banhada em lágrimas. As coisas de que você mais gosta, continuam vivas, mas, em estado de letargia, sono profundo: respiram, mas não lhe causam movimento; tudo parado, embora vivo, como quem adormecido se acha no quarto escuro, cujas portas e janelas estão fechadas, sem que ninguém possa abri-las, porque, em verdade, não há ninguém para abri-las, e o sol está lá fora, mas você, está adormecido, zelando em algum canto escuro da vida, pelas coisas de que você mais gosta, mas sem que possa colocá-las em movimento, fazê-las funcionar. Você tem receio que elas emperrem caso você tente. E você teme a decepção, a frustração, que esse fato inevitável, todavia, negado, possa lhe causar. Você vai envelhecendo, embora, continue sendo aquele garoto que acredita que tudo é possível, embora continue sendo aquele rapaz delicado que sonha poder mudar o mundo, porque ainda não sabe – puro,  tolo, ingênuo que é – que nem mesmo as pessoas que estão ao seu lado você pode mudar. Você vai envelhecendo, e vai se sentindo ridículo, porque aquelas mesmas emoções, que sempre lhe puseram em movimento agora se parecem estúpidas. E tudo vai perdendo a cor, o encanto, a profundidade, a perspectiva, que se torna abstrato, porque você vê nas coisas apenas coisas, e nos acontecimentos, apenas rotina. Evita o espelho, porque sabe exatamente o que ele pode lhe revelar. E isso o incomoda. Você prefere não sentir a decepção que a realidade lhe causa, sem que você possa mudá-la. É tudo um jogo – procura em vão acreditar. Começo, meio e fim. Engraçado, bonito; triste, deprimente, as fases da vida. Então, numa manhã nublada qualquer, daquelas preguiçosas, indolentes, disfarçadas de inconsequência, você acha de dar uma volta pelo campo santo em busca de lembranças, e daqueles que um dia disseram que lhe amavam. Tão longe eles estão. Não seria possível ouvi-los, de novo, mesmo que eles se lembrassem de você, assim, ao acaso. Pensamento atrai pensamento, sentimento atrai sentimento: um dia, isso também lhe disseram. E durante algum tempo nessa tola possibilidade você alimentou a esperança, de que chegaria o momento, que alguém surgisse para abrir as janelas e a porta do quarto escuro onde você se encontra. E despertá-lo do sono profundo, para bafejar-lhe o sopro da vida, de novo; mostrar-lhe um novo horizonte, não a noite, a alvorada... Enfim, fazê-lo ser um cara legal, de novo, disposto a viver.
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