quarta-feira, 21 de junho de 2017

O CAMINHO DO MEIO



Há um entendimento que de tão óbvio chega a ser vulgar, mas que muitas vezes é ignorado por nós. Diz assim: Não podemos mudar uma situação, a menos que saibamos lidar com ela.
Portanto, quem deseja aprender observa, analisa e busca por soluções.
Aliás, houve quem já nos dissera: “Busca e acharás”.
Disse também: “Conhece-te a ti mesmo”.
E ainda: “Conheça a verdade, e a verdade vos libertará”. Trocando em miúdos, só o amor constrói a felicidade. O amor é o caminho. É a solução. Ainda que demore. Mas é.
Reprodução
Acontece, porém, que nós, imediatistas, queremos soluções prontas.
Ao invés de trabalharmos para conquistar o que queremos, nós esperamos pela sorte.
Mas a lei do trabalho, ou seja, toda ocupação útil física e intelectual, é uma lei de Deus, à qual, ninguém está isento. E buscar soluções significa aprender e praticar. Ou seja, trabalhar.
Àquela menina aparentemente morta, conformem narram os Evangelhos, o que fez Jesus? Levantou-a do chão? Carregou-a no colo? Não! Ele disse: “Levanta-te e anda”.
Isso é mais profundo do que imaginamos.
Jesus nos desperta para a vida, esse é seu papel, como o ser iluminado que é, mas, nos esclarece que cabe a nós, levantarmos e seguirmos em frente.
Mas, em contrapartida, na sua preocupação em se estabelecer e convencer as pessoas, o que fazem algumas religiões?
Ao invés de despertarem consciências, e libertarem o homem do seu comodismo, arrancá-lo da sua estagnação, e colocá-lo em movimento, portanto, a trabalho, algumas religiões prometem soluções, ao invés de ensinar o homem a buscá-las e obtê-las por seu próprio esforço.
Algumas religiões desejam os fiéis que as sustentem, não desejam o homem livre, independente, que saia pelo mundo, a despertar consciências, a convocar a humanidade, através do seu bom exemplo, para o trabalho, para a luta por sua renovação moral.
Afinal, está escrito: “Arrancarás o teu sustento com o suor do teu rosto”. Se não tomássemos tudo ao pé da letra, entenderíamos que isso tanto vale para as necessidades do corpo, como para as necessidades da alma.
Conforme ensina o Livro dos Espíritos, há dois elementos fundamentais na constituição do Universo: Espírito e Matéria, cada qual, a seu tempo e a seu modo, segundo a sua natureza e finalidade, originam a vida, tal como a conhecemos, e também, como ainda não a conhecemos. Mas que, por observação, análise e dedução diante das evidências, sabemos existir.
600 anos antes de Jesus, existiu um homem que ficou conhecido como Buda. Ele ensinava que é melhor seguirmos o caminho do meio, ou seja, o caminho do equilíbrio. E por quê? Porque tudo no Universo é vida em harmonia, de tal sorte que o conceito de certo e errado, que, para algumas religiões significa pecado e não pecado, só existe, em verdade, para nós, que somos ainda aprendizes, a caminho da perfeição, que não vemos tudo, portanto não conhecemos tudo, e nem entendemos tudo, e vivemos atrelados a limites que nos são colocados pela Misericórdia Divina, para que evitemos (ao menos deveríamos) gerar conflitos, conosco mesmos, e com as pessoas e com o mundo, conflitos que geramos, a partir das nossas ações, pensamentos, palavras e sentimentos.
De modo que, para o pensamento de Buda, não existe o julgar, uma vez que, certo e errado, são conceitos relativos, conforme o grau de entendimento humano, conforme a cultura, os hábitos, os costumes, as tradições, as crenças, e as leis em vigor, no momento em que os fatos ocorrem.
Aliás, Jesus já sabia disso: que julgar é inútil e desnecessário. Basta lembrarmos qual foi sua atitude, diante da mulher adúltera.
Então, de nossa parte, sabendo que a vida envolve o Espírito e a Matéria, podemos deduzir que, para vivermos bem, em paz, é fundamental buscarmos o equilíbrio, a harmonia entre o Espírito e a Matéria.
Aliás, disso também já sabia Buda.
Conta-se que Buda, desejando iluminar-se espiritualmente, retirou-se do castelo onde era príncipe, para viver no campo da mortificação, um local isolado, onde dois mestres ensinavam discípulos que para lá se dirigiam.
Ali, as pessoas faziam penitências, a de Buda, que ele escolhera para si, era alimentar-se tão somente do excremento de gado. E assim ele o fez, durante 6 anos.
Até que um dia, muito cansado e fraco, foi banhar-se num rio ali perto. Mas, tão cansado estava Buda, que caiu no rio, que era raso, e estava se afogando, até que pessoas o ajudaram.
Já sentado à margem do rio, Buda viu que passava um barco, onde alguém afinava um instrumento de cordas. E o sujeito tanto esticou a corda do instrumento musical, que ela arrebentou.
Naquele momento, Buda percebeu que, com a vida ocorre o mesmo.
Se dedicarmos o melhor de nossos esforços, o máximo de nosso interesse e atenção, somente para as coisas materiais e o mesmo vale para as coisas espirituais, isso certamente nos trará prejuízos, devido os nossos excessos cometidos.
A partir daquele momento, Buda deixou o campo da mortificação, e foi seguir o que chamou de “O Caminho do Meio”.
Este entendimento também serve para nós. Assim como, no passado, serviu para Buda.
Se vivemos em excesso para a vida material, nos desequilibramos espiritualmente, e caímos, e nos machucamos feio. E o mesmo se dá, se vivemos em excesso para a vida espiritual.
Se nos voltamos, se damos o melhor de nós, somente para as coisas de valor material, é possível que cheguemos do outro lado da vida – e haveremos de chegar, é inevitável – sem saber, por exemplo, o que somos de fato, ou seja, espíritos – seres inteligentes, sensíveis, realizadores, destinados à perfeição, imortais. E sem ter a menor idéia do valor das coisas espirituais e da sua importância para nossas vidas, que, como sabemos, não começou e nem terminará nesta atual encarnação.
Por outro lado, se nos dedicamos em excesso às coisas de valor espiritual, talvez faltemos com nossos compromissos assumidos com aqueles que, por exemplo, são os mais próximos de nós: a nossa família, nossos amigos, companheiros de trabalho, de ideal.
Jesus também já sabia disso. E nos ensinou, assim como Buda, a importância da harmonia entre o que é Espírito e o que é Matéria, das quais se constituem a nossa natureza, quando disse: “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.
Portanto, nem nós, espíritos estamos na vida humana para derrotar o mundo, que é matéria, nem o mundo está em nossas vidas para nos derrotar. Busquemos sempre a harmonia com o mundo, porque assim será mais fácil viver nele.
E falando de Buda, espírito pertencente à falange dos Benfeitores da Humanidade...
É interessante observar uma coisa. Toda fachada de um templo budista tem a seguinte arquitetura: uma porta à esquerda, e outra à direita, menores; e uma porta central, maior; o que pode ser interpretado da seguinte forma: porta menor à esquerda: representa a matéria; porta menor à direita, representa o espírito. Porta maior, ao centro, representa o caminho do meio, do equilíbrio, da harmonia. É por ela, pela porta do meio, que devemos passar.
Por outro lado, os evangelistas canônicos, descrevem em suas narrativas, que Jesus foi crucificado com dois ladrões. Ou seja, pessoas que cometeram excessos, voltadas tão somente às coisas materiais da vida, portanto, em desequilíbrio, em desarmonia com eles mesmos, com o seu semelhante, com o mundo. Daí o sofrimento que padeciam, ao serem crucificados, e o que haviam causado antes às suas vítimas.
E onde estava Jesus, neste cenário? Estava ao meio. Ou seja, entre os dois ladrões. E o que nos ensina essa simbologia? Que ele, Jesus, de fato, tal como o próprio dissera, é o caminho para se chegar a Deus. Porque é o caminho do meio, do equilíbrio, da harmonia. Portanto, o caminho do Amor, do Perdão, da Paz.
Há uma concordância, nesse sentido, entre o que ensinava Buda e o que ensinava Jesus. Porque ambos ensinavam sobre o Amor, e o Amor é o idioma universal de Deus, não importa a roupa com a qual as religiões pretendem vesti-lo.
Jesus, um Espírito Iluminado, veio ao mundo com a missão de arrancar a humanidade das trevas para a Luz, e assim ensiná-la sobre o Amor. Jesus não venceu o mundo, o mundo aqui está. Ele venceu as coisas do mundo, porque nunca fora dependente delas, embora, na medida das necessidades e com sabedoria, delas fizesse uso. Jesus soube conviver com o mundo e com as coisas do mundo, em harmonia, com equilíbrio, aproveitando-as para as suas boas ações, porque sabia serem elas, sagradas, obras de Deus, e por meio das quais se dá a vida.
Espírito e Matéria são, até onde sabemos a expressão máxima do amor de Deus por nós, seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança.
Vejam: Deus nos fez à sua imagem e semelhança. E as religiões nos fizeram um Deus à nossa imagem e semelhança. O que é bem diferente.
Mas, falemos de Amor, um pouco mais.
Segundo Allan Kardec, na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, o amor, no qual se fundamenta o ensino moral de Jesus, é o ponto para o qual convergem todas as religiões cristãs.
O Amor revela o equilíbrio, a beleza, a perfeição e a harmonia de toda a Criação, da qual nós, seres humanos, espíritos encarnados e desencarnados, fazemos parte.
E, mais que tudo, e acima de tudo, Jesus veio nos ensinar a amar. A amar a Vida, toda forma de vida, porque se algo existe ou é obra de Deus ou tem a permissão de Deus.
E num esforço de entendimento maior de nossa parte, veremos que, se tudo se origina de Deus, os conceitos de certo e errado, são apenas conceitos possíveis para o nosso entendimento, sobre os fatos da vida, a que nós damos causa.
Daí que todo julgamento é inútil e desnecessário, e deixa de existir num ambiente onde impera o Amor.
Por isso Jesus nos ensinou também a não julgarmos. Uma vez que não temos conhecimento e sabedoria para tanto.
E num esforço ainda maior de entendimento de nossa parte, talvez possamos compreender melhor, como é muito mais profundo do que imaginamos o significado dos dois maiores ensinamentos de Jesus: O Amor e o Perdão.
Porque são eles, o Amor e o Perdão, que nos proporcionam vivermos em paz conosco, com nosso semelhante, com o mundo onde nos encontramos temporariamente.
O Amor e o Perdão nos proporcionam viver em  equilíbrio e harmonia, algo que só iremos encontrar se optarmos por seguir O Caminho do Meio.
Fontes para elaboração deste artigo:
1)    O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo, ambos de Allan Kardec.
2)    Vídeo-palestra do Prof. Láercio Fonseca, “Jesus, um Mestre Zen na Galiléia”, disponível no Youtube.


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