sexta-feira, 14 de julho de 2017

VEIA ROMPIDA



O sol desponta ultrapassando o limite da montanha
Mais um dia
Os olhos vão se abrindo aos poucos
Aos poucos a respiração vai sendo sentida
Aos poucos as lembranças retornam
Uma vontade de levantar hesitante
Do chão frio, imundo, esburacado
Levantar o corpo visitado, durante a noite
Baratas, moscas, pernilongos
Vieram e não foram vistos
Fizeram e se foram
E não foram os únicos
Os olhos vão se abrindo aos poucos
E evitam o sol
Esquecidos, talvez
Que, em desespero, o desejaram
Durante doze horas
Doze longas horas
Intermináveis horas
Sufocantes
Horas que perturbam
Incomodam
Já não servem de esconderijo
Os olhos aos poucos vão se abrindo
E se recusam a perceber, indecisos
Que o sol desponta ultrapassando o limite da montanha
A face branca da montanha, o seu perfil incerto, confuso
A silhueta mal definida
As doze horas que perturbam
Insultam
E desafiam
E já não servem de pretexto
Nem para o rancor, nem para o temor,
Nem para a dor, nem para o ódio
Doze horas escuras, o sol deitado, ainda, atrás da montanha
Por que não desperta?
Enquanto algo bate forte, por dentro, insistente
É teimoso, se recusa a deitar, desistir
Permanece, batendo, endurece
Enquanto o que havia
Em forma de palavras, olhares, certezas, já se foi
Já vai muito longe,
Partiu em silêncio, deixando rastros
Que agora já não servem como guia, direção, não são vistos
O sol está no alto, a montanha está longe
Sua face branca derrete-se no infinito
Outros chegam, mudos, cabisbaixos, encolhidos
Para ocupar o espaço, o vazio deixado
Eles vêm da montanha
Agora tomada pela penumbra
Doze horas, dores horas que não cessam
Não rompem o silêncio, nem o vento
Não trazem palavra, nem um sorriso
Nem um abraço, nem um olhar
Doze horas, o mesmo fundo, o mesmo cenário
Parado, triste, imutável
Não há movimento, nem lágrima, nem chuva
O que há?
A espera


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